Cláudio Jorge celebra a consciência e o orgulho da negritude no batuque que embasa o álbum 'Kota, a cor da pele'

  • 20/03/2026
(Foto: Reprodução)
Aos 76 anos, o violonista Cláudio Jorge volta a lançar álbum com repertório autoral após dois discos como intérprete Celso Filho / Divulgação ♫ CRÍTICA DE ÁLBUM Título: Kota, a cor da pele Artista: Cláudio Jorge Cotação: ★ ★ ★ 1/2 ♬ No dicionário de kimbundu, língua banta falada em Angola, kota é palavra que designa “o mais velho”, “aquele que transmite conhecimento”. No título do álbum que lançará em 10 de abril, “Kota, a cor da pele”, o cantor, compositor e violonista carioca Cláudio Jorge faz engenhoso trocadilho com cota, palavra que, no Brasil, está associada à política da cota racial, ação afirmativa que reserva para negros uma quantidade pré-determinada de vagas em universidades e concursos públicos com o intuito de minimizar desigualdades históricas. “A cor da pele é o que define o destino de muitos brasileiros. Quanto mais escura a pele, maiores as barreiras a serem vencidas na luta por cidadania. O álbum é um manifesto pessoal, é a celebração do meu processo de consciência da minha negritude, uma orgulhosa comemoração de todas as muitas qualidades do povo negro, da ancestralidade até os nossos dias, tudo com muita palma de mão e tambor”, contextualiza Cláudio Jorge no texto em que apresenta “Kota, a cor da pele”, álbum gravado e mixado por Lourival Franco no estúdio Vale da Tijuca, no Rio de Janeiro (RJ), e posto no mercado fonográfico em edição da Mills Records. Exímio violonista, requisitado há décadas em estúdios de gravação por grandes cantores do Brasil, Jorge baseia o álbum nas percussões de André Siqueira e Marcelinho Moreira. O batuque sobressai ao longo das 13 faixas em que Cláudio Jorge versa sobre temas como ancestralidade, musicalidade e religiosidade, sem deixar de mexer na ferida aberta do preconceito racial. O racismo sofrido pelo jogador de futebol Vinícius Júnior em campos da Europa foi o mote para a criação de samba em exaltação ao craque, “O tom do Vinícius”, composto a partir de versos indignados escritos por Jorge e musicados pela parceria Joyce Moreno. “O tom do Vinícius” entrou em campo em 14 de março, em single que prenunciou a chegada de “Kota, a cor da pele”, álbum cuja capa expõe arte criada por Oliveira & Naccarato a partir de obra de Rubem Valentim. Embora careça de luminosidade, o canto do artista soa sempre bem colocado e é evidenciado já na faixa quase a capella que abre o álbum no formato de voz & kalimba, “Acorda, meu amor!” (Cláudio Jorge e Nei Lopes), música composta para a trilha sonora do musical “Oh! que delícia de negras” (1987 / 1989), da qual o artista também pesca “Bate chibata”, tema inédito dessa trilha assinada por Jorge com Nei Lopes. Primeiro álbum autoral de Cláudio Jorge desde “Samba jazz, de raiz” (2019), tendo sido antecedido por dois discos de intérprete (um gravado com Guinga), “Kota, a cor da pele” é álbum conceitual em que todas as 13 músicas, sendo oito inéditas, versam sobre questões ligadas à negritude. “O álbum é uma reflexão que faço, aos 76 anos, sobre a cultura negra, em crônicas musicais que seguem roteiro de faixas afins”, reitera Cláudio Jorge. Na sequência de “Acorda, meu amor!”, vem “Congueiros e ogãs” (Cláudio Jorge), envolvente ijexá em que o artista celebra dois percussionistas que já saíram de cena, Peninha (1950 – 2016) e Zero Awá (1957 – 2025). O tambor bate com reverência aos dois músicos enquanto o tema se curva à força dos ogãs no Candomblé. Em sintonia com a faixa anterior, o toque do atabaque de André Siqueira se impõe em solo feito pelo percussionista em “Do que é capaz o tambor e o agogô”, música já gravada por Jorge, com Pretinho da Serrinha, no álbum “Senzala e favela” (2023), título póstumo da discografia do baterista Wilson das Neves (1936 – 2017). O tom pessoal e reflexivo do álbum é enfatizado nos versos de “Histórias e lendas” (Cláudio Jorge e Joel Silva), música lançada por Zezé Motta, no ritmo do maculelê, em gravação feita para a novela “Pacto de sangue” (1989), exibida pela TV Globo. O sopro da flauta de PC Castilho embala a lembrança do tema, cuja letra foi atualizada por Cláudio Jorge. Na sequência, o artista esboça mergulho nas águas de Dorival Caymmi (1914 – 2008) para louvar o orixá feminino Iemanjá em “Recado do mar”, parceria com Nei Lopes embalada pela trama sedutora do violão de Carlinhos Sete Cordas. Igualmente aliciante, o balanço da faixa valoriza a melodia de evocação praieira. A propósito, no geral, versos e levadas se elevam sobre as melodias em músicas como “Onde o samba nasceu”, parceria de Cláudio Jorge com o flautista e saxofonista Humberto Araújo. Mote dos versos do samba “Lágrimas de Deus”, escritos por Jorge a partir de melodia de Elton Medeiros (1930 – 2019), o horror da guerra confere triste atualidade à faixa em sintonia com o protesto político feito por Cláudio Jorge na ambientalista “Muda”, parceria com Chico César. Já “Um novo amor” é canção de ar vintage que vira samba de amor, composto por Cláudio Jorge com o bamba Arlindo Cruz (1958 – 2025). Citando título de standard do repertório do Clube da Esquina, “Para Wonder e McCartney” (Cláudio Jorge e Ronaldo Barcellos) celebra a união entre negros e brancos antirracistas ao lembrar o encontro de Paul McCartney e Stevie Wonder na gravação da música “Ebony and ivory” (1982). Projetado como produtor musical de álbuns recentes de Mart’nália. o virtuoso Luiz Otávio toca teclados na faixa, valorizando a gravação. E vem então, no arremate do álbum “Kota, a cor da pele”, o exuberante registro de “Tia Eulália na xiba” (1983), música mais inspirada e (por isso mesmo) mais gravada da parceria de Cláudio Jorge com Nei Lopes. No compasso da xiba, ritmo de origem africana, o artista revolve as raízes da ancestralidade com o batuque que embasa a gravação floreada pelo sopro do trompete de Diogo Gomes. “Tia Eulália na xiba” evolui em grande registro, da dimensão da música, fechando com maestria “Kota, a cor da pele”, álbum em que Cláudio Jorge exalta a consciência e o orgulho da negritude sob prisma pessoal e sob complementar ótica social, desempenhando bem o papel do kota, aquele ser já vivido que transmite conhecimento e experiência. Capa do álbum 'Kota, a cor da pele', de Cláudio Jorge Obra de Rubem Valentim com arte de Oliveira & Naccarato

FONTE: https://g1.globo.com/pop-arte/musica/blog/mauro-ferreira/post/2026/03/20/claudio-jorge-celebra-a-consciencia-e-o-orgulho-da-negritude-no-batuque-que-embasa-o-album-kota-a-cor-da-pele.ghtml


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