Catto renasce como Vênus ao amplificar a potência de 'Caminhos selvagens' em show ardente com gozos e cicatrizes
29/01/2026
(Foto: Reprodução) Catto apresenta no Rio de Janeiro, pela primeira vez, o show 'Caminhos selvagens', baseado no álbum autoral de 2025
Rodrigo Goffredo
♫ CRÍTICA DE SHOW
Título: Caminhos selvagens
Artista: Catto
Data e local: 28 de janeiro de 2026 no Teatro Riachuelo (Rio de Janeiro, RJ)
Cotação: ★ ★ ★ ★
♬ Enfim apresentado por Catto na cidade do Rio de Janeiro (RJ), para plateia ardorosa que encheu o Teatro Riachuelo na noite desta quarta-feira, 28 de janeiro, o show "Caminhos selvagens" simboliza o renascimento da artista como Vênus.
Dois anos após ampliar o público com o show e disco "Belezas são coisas acesas por dentro", trabalho em que abordou com pegada o repertório de Gal Costa (1945 – 2022), a cantora e compositora consolidou a identidade feminina ao voltar para o trilho autoral no álbum "Caminhos selvagens" (2025), apresentado em maio do ano passado com repertório confessional que legou músicas como "Eu te amo" (2025), rebobinadas no show na atmosfera rocker de uma cena quente do início ao fim.
No show, Catto amplifica a potência da sonoridade já intensa do indie rock que pauta o álbum produzido pela artista com Fabio Pinczowski e Jojô Augusto. Desde a primeira música do roteiro, "Eu não aprendi a perdoar" (2025), Catto reiterou a postura performática e o alcance da voz que deslumbrou o Brasil nos anos 2010 com o álbum "Fôlego" (2011).
A indústria fonográfica tentou sufocar essa voz com covers e fórmulas comerciais. Mas Catto acabou escapando do jugo e, a partir do álbum "Tomada" (2015), tomou as rédeas da discografia. "Caminhos selvagens", disco e show, é o atestado definitivo dessa liberdade criativa.
Até as músicas mais fracas do disco ganharam alguma força em cena, caso de "Solidão é uma festa" (2025), por conta do calor da apresentação turbinada por banda potente que incluiu a baterista Michele Abu, o guitarrista Jojô Inácio, o baixista Gabriel Mayall e a tecladista Júlia Kluber, imponente ao dividir com Catto o canto de "Saga" (2009), música-título do EP que revelou ao Brasil essa gaúcha de Porto Alegre (RS) – cidade que sediou a vivência erótica escancarada na balada "Para Yuri todos os meus beijos" (2025) – há anos residente em São Paulo (SP).
Catto eletriza o público do Teatro Riachuelo na estreia do show 'Caminhos selvagens' no Rio
Rodrigo Goffredo
À vontade nesse trilho pavimentado por amor e sexo, ambos não necessariamente acoplados um ao outro, a cantora se deixou levar por pulsão erótica à qual se ajustou perfeitamente a libertária "Canção de engate" (1984), joia do cantor e compositor português António Variações (1944 – 1984) lapidada pela cantora no álbum "Catto" (2017), o título mais bem acabado da discografia autoral da artista.
Sob os gritos de "Gostosa" e "Maravilhosa" que vinham a todo momento da plateia, a intérprete expôs gozos e cicatrizes do amor em cena que por vezes adquiriu contornos até épicos no canto de músicas como "Madrigal" (2025) e a composição-título "Caminhos selvagens" (2025).
Ciente de que ainda é arriscado abandonar o repertório de Gal Costa, Catto incluiu três músicas do trabalho anterior no roteiro essencialmente autoral do show "Caminhos selvagens". A balada "Nada mais" (Stevie Wonder, 1980, em versão em português de Ronaldo Bastos, 1984) a canção "Negro amor" (Bob Dylan, 1965, em versão em português de Caetano Veloso e Péricles Cavalcanti, 1977) – rebobinada em tom folk, com Catto ao violao – e "Vaca profana" (Caetano Veloso, 1984), esta em clima apoteótico, roqueiro, quase carnavalizante, se afinaram com a quentura de show aquecido por dores e emoções reais.
A boa surpresa foi "Bad girl" (Madonna, Shep Pettibone e Anthony Shimkin), música do repertório de Madonna, apresentada pela diva norte-americana no álbum "Erotica" (1992). Tudo a ver, pois Catto seguiu por "Caminhos selvagens" como uma garota que ama e quer amor e prazer, mas que pode ficar má e derramar o leite na cara dos caretas se ouvir mentiras descaradas.
Não, Catto não quer mais pouco e, por isso mesmo, oferece muito na cena ardente de "Caminhos selvagens" entre gozos e cicatrizes do amor.
Catto canta 'Bad girl', música do repertório de Madonna, no show 'Caminhos selvagens'
Rodrigo Goffredo